quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Gostosamente Especial


 Eventos de grande importância não chegam em nossas vidas com hora marcada. Vejam: Deus não manda telegrama pra avisar suas intenções, não comunica fatos com antecedência. De modos que, sucesso ou dissabor, ambos chegam , arrasam e a gente é que deve arrumar o jeito de conduzir a vida dali em diante.
Com a deficiência ocorre o mesmo. Um acidente automobilístico, um afogamento, doenças infectocontagiosas, vasculares são motivos frequentes para a entrada desta “palavra” em nosso cotidiano. No meu caso, ela veio primeiro com nome de prematuridade.  Até aí um susto mas,  eu não tinha ideia da proporção que este fato tomaria.
 E veio com tudo. Primeiro era luta pela sobrevivência... dolorosa, horrorizante. Depois entrou o sobrenome da coisa: sequelas.  Mas era muito indefinido, e meus questionamentos eram sem fim: surdo? Mudo? Paraplégico?Cego? Mental? Tudo junto?  Para esta última questão recebi um “possivelmente”.
Sem entender direito, eu pensava apenas no dia a dia dentro da incubadora. Que merda é essa de viver dentro de uma caixinha e não ver nada lá fora? Pior! Poderia só conhecer aquilo da vida. Me digam, isso é vida? E por não me conformar com essa palhaçada, me apressei  em relatar . Todos os dias eu contava sobre o mundo, o que tinha além daquele laboratório hospitalar maluco (UTI Neo parece laboratório de gente).
Contava sobre a praia (adoro praia), sobre os bichos, como era o quarto, a casa. Tínhamos um pacto: sai daí e eu te mostro tudo isso. Levou um ano praticamente inteiro e ele fez a parte que lhe cabia . E eu nem sabia como começar a cumprir minha parte. Sério.
Muitas limitações, havia necessidade de suporte de equipamentos, medo. Todo mundo achava o máximo estar em casa mas, embora feliz, pra mim aquilo era pouco... que vantagem Maria leva em sair da cama do hospital e ficar na cama de casa? Tá ...é bem vantajoso mas,não é ideal. Vai de cá e de lá, e em 2 meses ele conheceu a casa, o carro , a avenida Paes de Barros, a casa de um parente ou outro,  e , 6 meses depois ele viu a praia! Missão dada é missão cumprida!
Deus não me avisou com antecedência mas, já estamos tomando a limonada que preparamos com os limões que ele mandou.Esse foi nosso jeito.Essa foi a saída que adotamos para lidar com as limitações. Ninguém as escolhe.  O que a gente escolhe é como minimizá-las.
  Alguma coisa ainda desce azeda... é o tal do preconceito. Esse tá mais difícil, porque depois que a gente passa por todas as fases (negação, revolta,culpa, aceitação) sobra um negócio que está dentro do outro e a gente não pode mudar.

A diferença é algo que  incomoda as pessoas. Tudo que sai fora da forma alienante desta sociedade hipócrita (nossa! abalei nessa) gera desconforto.  E aquela regra, os incomodados que se mudem, cai por terra quando o assunto é deficiência. Quem se muda é o deficiente pra não se irritar ainda mais. E hoje eu sinto dó dos E.T´s... put´s! Numa próxima visita serão olhados com horror, desprezo e até nojo... sim, porque se as pessoas olham  seres humanos deficientes assim, imaginem com outra espécie?
Desculpem o desabafo.
Bom, mas o que importa é que estamos aí! Experimentando tudo na medida do possível, sendo feliz, contrariando as previsões pessimistas. Fazendo planos. O cérebro vive disso sabiam?  Claro que sabiam!
 E pra sair desta suposta seriedade, a próxima postagem vem na sequência, cheia  de vontade de viver.É Papo Sério!

 
                                                                 Esse cara sou eu!!!

Um comentário:

  1. Como dizia Albert Einstein:
    "Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito!!!"
    Infelizmente...
    Totalmente D+ ... Beijo Enorme

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