quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

É Papo Sério! I - Sacudindo os Neurônios


Seres humanos vivem de experiências. Provar comidas diferentes, sentir cheiros novos, ouvir sons extra cotidianos , tudo, absolutamente tudo que é novo nos faz viver. Segundo Lawrence Katz, autor de Mantenha o seu Cérebro Vivo,” o cérebro  humano está preparado para reagir ao que é inesperado ou inusitado, como novas informações absolutamente inéditas vindas do mundo exterior”. Ou seja, seu cérebro se renova e cresce a cada nova experiência, não importa a idade que se tenha.
Neste livro, o Dr. Lawrence, propõe exercícios que alterem a nossa rotina, tipo: tomar banho de luz apagada, escovar os dentes com a outra mão, etc. Mas, a melhor de todas as sugestões  , na minha opinião, é viajar! Fala sério?  Conhecer gente nova, construções que nunca vimos, leis diferentes, novos sabores e amores, é um bombardeio estímulos renovando nossa mente! Até aqueles passeios meio mal sucedidos  tem sua  participação no nosso crescimento. É injeção de Vida!
 
Lógico que tropeçamos em situações que atrapalham essas aventuras. É o trabalho que não nos dispensa, é o dinheiro que não dá, problema com casa, cachorro, sogra (esta última então, aff problema na certa!). Agora, o que não pode, é o obstáculo se tornar impedimento. A gente tem que buscar as oportunidades, raspar até a última gota de disposição e meter o pé.
O assistente social, ator e meu doido preferido, Robson de Souza, virou mexeu enfia uma mochila nas costas e cai no mundo. Ele relata que uma viagem é capaz de lhe trazer sensação de paz , prazer e preenchimento, seja ela para longe ou aqui pertinho; inclusive,ao traçar seu planejamento de início de ano uma ou duas viagens é meta obrigatória.
“E voltar pra casa também é bom, mas se volta diferente, marcado pelo acolhimento das pessoas e com as lembranças. Pois, como esquecer as fortes expressões das mulheres cholas da Bolivia, que mostra além de sofrimento, presença? Ou, como esquecer os trançados de pernas dos artistas de tango em uma praça pública de Buenos Aires, que te hipnotiza de tal maneira que, quando desperto, a vontade é de sair dançando principalmente pra ver se consigo ser tão sedutor quanto os dançarinos?.”
 
Agora vejam, todas estas maravilhas “renovativas” acontecem com todos e com os deficientes não é diferente, talvez, exija  um pouquinho de esmero e preparo mas, não é impossível. Querem ver?
Ana Carla Vannucchi, é fotógrafa, cantora, insubordinada , Gostosa e mãe de 3 machinhos. Um deles é o Pêpe(11), portador de mieloneningocele  que gerou a diplegia, resumindo, é cadeirante. O Pepê já rodou o mundo gente! Aprendeu e cresceu. Sua primeira viagem, aos 3 anos, foi internacional, Argentina. As condições de acessibilidade foram satisfatórias. Já quando se mudou para Ribeirão Preto, fazia vôos constantes pra São Paulo, no aeroporto de Ribeirão não tem elevador pra levá-lo ao interior do avião, teve que subir a escada no colo. Mas, não houve problemas, teve é firula, conforme descreve a Ana:
Na primeira viagem, ao chegar em S.P., o pai o esperava, todo mundo desceu do avião e nada do Pepê, nada do Pepê. Daqui a pouco, um grupo de aeromoças e um moleque com o quepe do piloto, numa cadeirinha de rodas, uma carregava a mala, outra, a mochila e todo mundo rindo e falando com ele. “
Pensem na experiência afetiva, social e até de aceitação que o cérebro dele recebeu?
É importante informar  que o Ministério da Aeronautica dispõe de  Norma de Serviço (IMA 58-60) para transporte de pessoas que necessitam de cuidados especiais. Por exemplo:  aparelhos, cadeiras de rodas, cão guia,respiradores podem ser transportados gratuitamente no interior da cabine de acordo com as condições de espaço. O embarque destes passageiros será sempre antes dos demais e o desembarque depois de todo mundo. Se a companhia aérea exigir um acompanhante, deverá garantir um desconto na passagem do mesmo. Cada indivíduo (paciente) recebe uma classificação e codificação que vai definir as exigências para transporte seguro, aí a companhia pode exigir um atestado médico ou mesmo um médico acompanhante - isto seria para casos de pacientes que fazem uso de oxigênio, bebês em incubadoras, etc.
Enfim, tem uma porrada de coisinhas que precisam ser consultadas antes e, claro, a avaliação e opinião do médico que acompanha regularmente o aventureiro em questão. Há inúmeros casos, tipos, cada um é um.
Há mitos e verdades que precisamos saber e entender. Segundo a Neuropediatra e linda , Silvana Frizzo, um vôo não tem implicações neurológicas para pacientes que usam válvula para hidrocefalia (DVP) ou que tem convulsões, ou seja, os vôos não precipitam convulsões. Já pessoas com dificuldades respiratórias precisam ser avaliados e autorizados criteriosamente pois o risco é maior. As viagens de navio são mais complicadas devido a estrutura de atendimento, se houver algum mal estar os primeiros socorros são prestados na embarcação que, via de regra, tem equipe médica a bordo. Mas, se o caso exigir mais estrutura, como sair dali?  Sem contar que navio é um ambiente mais favorável a doenças contagiosas (vuco-vuco de gente num lugar sem escapatórias !) pode ser problema pra quem tem imunidade baixa. No entanto, a historinha de que o balanço do navio (aquela mareada nauseante) causa convulsões é falsa. Por isso, só o médico é o profissional para opinar e autorizar  estes super passeios.
A Ana  e o Pepê estão morando na França. Chique né? Ela me antecipou que lá  os aeroportos tem equipe para ajudar no que for preciso, o transporte de deficiente é lindo: rampas, elevadores , pessoas pra ajudar nas estações... tudo lindo !Aliás, outras pessoas já me contaram que, no dito primeiro mundo, o cotidiano e acessibilidade do deficiente é algo muito natural.  Ah! Uma coisa que eles vivenciaram e é um saco , é a troca de fraldas. Vôos longos requerem troca de fraldas e o trocador de bebê não é suficiente, claro. Assim , o banheiro do avião tem que servir e o acompanhante vira malabarista. Sinceramente, isso é um problema em muitos lugares (consultórios, shoppings,etc) ,dá uma raiva!
 Pasmem, ou melhor, invejem, o Pepê já foi pra Disney e New York City! Visitem  no seu blog pessoal  as fotos desse menino que comeu pé de cachorro(minha mãe definia assim pessoas que correm o mundo), indico http://pedrocoscia.blogspot.fr
Já para o Robson ,que visitou o Texas recentemente e embora não possua deficiência alguma , não pôde deixar de observar a questão da acessibilidade , concluiu o seguinte:
“ em países de primeiro mundo, como caracterizados, existe maior fluidez. Uma hipótese: isto ocorre não meramente pelo olhar inclusivo, mais porque possuem maior planejamento e tratam a questão sempre através dos benefícios econômicos”.
Mas vai de cá e de lá, nem todos tem dinheiro ou condições pra fazer passeios mais longos. No meu caso a experiência é terrestre, sempre achei viajar o máximo e  nunca deixei meu filho fora desta, fosse como fosse.  Muito embora, todas as limitações físicas e o fato de ele usar oxigênio limite-nos em questão de tempo (não mais que  3 dias fora)  e distância,há também o risco de alguma intercorrencia no carro mas,  vacilou a gente deita os cabelos mesmo! Resguardo apenas que estejamos em local com atendimento médico do convênio.É coisa minha, me deixa segura. E vocês não imaginam como é bom para nós sairmos do nosso casulo! O guri curte, protesta, chora, exige, assusta, ri  ; seu pequeno lesado cérebro mostra que a vida é um poço de estímulos positivos que aumentam  nossas perspectivas e cognições. Também valem os passeios no parque, no shopping, no mercado. Curtos ou longos,  sociabilizar-se é demais.
E , ainda que agora não possamos alçar vôos distantes, contamos com amigos como a Ana, o Pepê, Robson e outros que dividem suas impressões conosco nos instigando a imaginação, soprando alegria na nossa cara... As viagens são boas até quando a gente não sai do lugar: contadas, recordadas e divididas propagam seus benefícios. A viagem dos outros é a nossa viagem interior.
Então gente? Fé na vida e pé na estrada!

Fontes de pesquisa e parceiros desta doideira:
Katz C., Lawrence & Rubin, Manning.Mantenha seu cérebro vivo.15 a. Ed.Rio de Janeiro: Sextante,2000.
www.amputadosvencedores.com.br

 Ana Carla Vannucchi, Fotógrafa, Cantora,Corajosa , Tenaz, Gostosa e  Insubordinada.                                         (a foto “discostas’ não chegou a tempo de completar esta postagem)

http://pedrocoscia.blogspot.fr

Silvana Frizzo, Neuropediatra, Linda, Mãe fresca.

Robson de Souza Martins, Assistente Social, Ator, Meu doido preferido, Mochileiro, Metido a besta.




                                    

3 comentários:

  1. Cris!!!! fora o pedido de desculpas pela foto ... esqueci mesmo - adorei, outra vez .... que facilidade pra contar uma história ..... quero mais artigos, todo dia, se vira, nêga!!!! grande beijo!
    Ana Carla

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  2. pô meu!! manda a foto se quiser, eu reedito e coloco vc com todo prazer. Só não peça para eu retirar os títulos que lhe atribuí!! rsrsr beijos!!!

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  3. Muito 10 o Blog do Pepê!!!
    "Nós não devemos deixar que as incapacidades das pessoas nos impossibilitem de reconhecer as suas habilidades...nunca!"
    Mais uma vez, arrasou!

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