Seres humanos vivem de experiências. Provar comidas
diferentes, sentir cheiros novos, ouvir sons extra cotidianos , tudo,
absolutamente tudo que é novo nos faz viver. Segundo Lawrence Katz, autor de
Mantenha o seu Cérebro Vivo,” o cérebro
humano está preparado para reagir ao que é inesperado ou inusitado, como
novas informações absolutamente inéditas vindas do mundo exterior”. Ou seja,
seu cérebro se renova e cresce a cada nova experiência, não importa a idade que
se tenha.
Neste livro, o Dr. Lawrence, propõe exercícios que alterem a
nossa rotina, tipo: tomar banho de luz apagada, escovar os dentes com a outra
mão, etc. Mas, a melhor de todas as sugestões
, na minha opinião, é viajar! Fala sério? Conhecer gente nova, construções que nunca
vimos, leis diferentes, novos sabores e amores, é um bombardeio estímulos
renovando nossa mente! Até aqueles passeios meio mal sucedidos tem sua
participação no nosso crescimento. É injeção de Vida!
Lógico que tropeçamos em situações que atrapalham essas
aventuras. É o trabalho que não nos dispensa, é o dinheiro que não dá, problema
com casa, cachorro, sogra (esta última então, aff problema na certa!). Agora, o
que não pode, é o obstáculo se tornar impedimento. A gente tem que buscar as oportunidades,
raspar até a última gota de disposição e meter o pé.
O assistente social, ator e meu doido preferido, Robson de
Souza, virou mexeu enfia uma mochila nas costas e cai no mundo. Ele relata que
uma viagem é capaz de lhe trazer sensação de paz , prazer e preenchimento, seja
ela para longe ou aqui pertinho; inclusive,ao traçar seu planejamento de início
de ano uma ou duas viagens é meta obrigatória.
“E voltar pra casa também é bom, mas se
volta diferente, marcado pelo acolhimento das pessoas e com as lembranças. Pois,
como esquecer as fortes expressões das mulheres cholas da Bolivia, que mostra
além de sofrimento, presença? Ou, como esquecer os trançados de pernas dos
artistas de tango em uma praça pública de Buenos Aires, que te hipnotiza de tal
maneira que, quando desperto, a vontade é de sair dançando principalmente pra
ver se consigo ser tão sedutor quanto os dançarinos?.”
Agora vejam, todas estas maravilhas “renovativas” acontecem
com todos e com os deficientes não é diferente, talvez, exija um pouquinho de esmero e preparo mas, não é
impossível. Querem ver?
Ana Carla Vannucchi, é fotógrafa, cantora, insubordinada , Gostosa e
mãe de 3 machinhos. Um deles é o Pêpe(11), portador de mieloneningocele que gerou a diplegia, resumindo, é
cadeirante. O Pepê já rodou o mundo gente! Aprendeu e cresceu. Sua primeira
viagem, aos 3 anos, foi internacional, Argentina. As condições de
acessibilidade foram satisfatórias. Já quando se mudou para Ribeirão Preto,
fazia vôos constantes pra São Paulo, no aeroporto de Ribeirão não tem elevador
pra levá-lo ao interior do avião, teve que subir a escada no colo. Mas, não
houve problemas, teve é firula, conforme descreve a Ana:
“Na primeira viagem,
ao chegar em S.P., o pai o esperava, todo mundo desceu do avião e nada do Pepê,
nada do Pepê. Daqui a pouco, um grupo de aeromoças e um moleque com o quepe do
piloto, numa cadeirinha de rodas, uma carregava a mala, outra, a mochila e todo
mundo rindo e falando com ele. “
Pensem na experiência afetiva, social e até de aceitação que
o cérebro dele recebeu?
É importante informar
que o Ministério da Aeronautica dispõe de Norma de Serviço (IMA 58-60) para transporte
de pessoas que necessitam de cuidados especiais. Por exemplo: aparelhos, cadeiras de rodas, cão
guia,respiradores podem ser transportados gratuitamente no interior da cabine
de acordo com as condições de espaço. O embarque destes passageiros será sempre
antes dos demais e o desembarque depois de todo mundo. Se a companhia aérea
exigir um acompanhante, deverá garantir um desconto na passagem do mesmo. Cada
indivíduo (paciente) recebe uma classificação e codificação que vai definir as
exigências para transporte seguro, aí a companhia pode exigir um atestado
médico ou mesmo um médico acompanhante - isto seria para casos de pacientes que
fazem uso de oxigênio, bebês em incubadoras, etc.
Enfim, tem uma porrada de coisinhas que precisam ser
consultadas antes e, claro, a avaliação e opinião do médico que acompanha
regularmente o aventureiro em questão. Há inúmeros casos, tipos, cada um é um.
Há mitos e verdades que precisamos saber e entender. Segundo
a Neuropediatra e linda , Silvana Frizzo, um vôo não tem implicações
neurológicas para pacientes que usam válvula para hidrocefalia (DVP) ou que tem
convulsões, ou seja, os vôos não precipitam convulsões. Já pessoas com
dificuldades respiratórias precisam ser avaliados e autorizados criteriosamente
pois o risco é maior. As viagens de navio são mais complicadas devido a
estrutura de atendimento, se houver algum mal estar os primeiros socorros são prestados
na embarcação que, via de regra, tem equipe médica a bordo. Mas, se o caso
exigir mais estrutura, como sair dali? Sem
contar que navio é um ambiente mais favorável a doenças contagiosas (vuco-vuco
de gente num lugar sem escapatórias !) pode ser problema pra quem tem
imunidade baixa. No entanto, a historinha de que o balanço do navio (aquela
mareada nauseante) causa convulsões é falsa. Por isso, só o médico é o
profissional para opinar e autorizar
estes super passeios.
A Ana e o Pepê estão
morando na França. Chique né? Ela me antecipou que lá os aeroportos tem equipe para ajudar no que
for preciso, o transporte de deficiente é lindo: rampas, elevadores , pessoas
pra ajudar nas estações... tudo lindo !Aliás, outras pessoas já me contaram que, no dito primeiro mundo, o cotidiano e acessibilidade do deficiente é algo muito natural. Ah! Uma coisa que eles vivenciaram e é um
saco , é a troca de fraldas. Vôos longos requerem troca de fraldas e o trocador
de bebê não é suficiente, claro. Assim , o banheiro do avião tem que servir e
o acompanhante vira malabarista. Sinceramente, isso é um problema em muitos
lugares (consultórios, shoppings,etc) ,dá uma raiva!
Pasmem, ou melhor,
invejem, o Pepê já foi pra Disney e New York City! Visitem no seu blog pessoal as
fotos desse menino que comeu pé de cachorro(minha mãe definia assim pessoas que
correm o mundo), indico http://pedrocoscia.blogspot.fr
Já para o Robson ,que visitou o Texas recentemente e embora
não possua deficiência alguma , não pôde deixar de observar a questão da
acessibilidade , concluiu o seguinte:
“ em países de primeiro mundo, como caracterizados, existe maior
fluidez. Uma hipótese: isto ocorre não meramente pelo olhar inclusivo, mais
porque possuem maior planejamento e tratam a questão sempre através dos
benefícios econômicos”.
Mas vai de cá e de lá, nem todos tem dinheiro ou condições
pra fazer passeios mais longos. No meu caso a experiência é terrestre, sempre
achei viajar o máximo e nunca deixei meu filho fora desta, fosse como
fosse. Muito embora, todas as limitações
físicas e o fato de ele usar oxigênio limite-nos em questão de tempo (não mais
que 3 dias fora) e distância,há também o risco de alguma
intercorrencia no carro mas, vacilou a
gente deita os cabelos mesmo! Resguardo apenas que estejamos em local com
atendimento médico do convênio.É coisa minha, me deixa segura. E vocês não
imaginam como é bom para nós sairmos do nosso casulo! O guri curte, protesta,
chora, exige, assusta, ri ; seu pequeno lesado cérebro mostra que a vida é um
poço de estímulos positivos que aumentam
nossas perspectivas e cognições. Também valem os passeios no parque, no
shopping, no mercado. Curtos ou longos,
sociabilizar-se é demais.
E , ainda que agora não possamos alçar vôos distantes,
contamos com amigos como a Ana, o Pepê, Robson e outros que dividem suas
impressões conosco nos instigando a imaginação, soprando alegria na nossa cara...
As viagens são boas até quando a gente não sai do lugar: contadas, recordadas e
divididas propagam seus benefícios. A viagem dos outros é a nossa viagem
interior.
Então gente? Fé na vida e pé na estrada!
Fontes de pesquisa e parceiros desta doideira:
Katz C., Lawrence & Rubin,
Manning.Mantenha seu cérebro vivo.15 a. Ed.Rio de Janeiro: Sextante,2000.
www.amputadosvencedores.com.br
Ana Carla Vannucchi, Fotógrafa, Cantora,Corajosa
, Tenaz, Gostosa e Insubordinada. (a foto “discostas’ não
chegou a tempo de completar esta postagem)
http://pedrocoscia.blogspot.fr
Silvana Frizzo, Neuropediatra, Linda, Mãe fresca.
Robson de Souza Martins, Assistente Social, Ator, Meu doido preferido, Mochileiro, Metido a besta.