quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

É Papo do Coração VI- Mariposa vira Borboleta





Último dia do ano, hora de fazer o balanço geral, agradecer, pedir de novo. Felizmente, para a maioria das pessoas,  ainda persiste este hábito de reflexão anual.  No meio desta loucura cotidiana , um dia que a gente consegue revisar nosso livro.

E descobrimos coisas surpreendentes nesse processo. O cérebro, “safo” como ele só, registra melhor as boas experiências, mesmo que desencadeadas por um sofrimento (e todo crescimento provém da dificuldade,  é a superação) .  Quer ver só?

Eu tenho medo de mariposas gigantes. Disso que eu chamo de borboleta preta. Ô bicho esquisito! Pra mim é mal agourento, sempre associo a doença e morte. Eu sei que é bobagem mas,  já deixei de entrar no meu próprio  quarto por dois dias só pra não ver a danada no teto.Um pequeno mostro.

Espantar? Jamé! E se ela voar pra cima de mim? Tipo barata ,sabem?   Então, imploro ou pago pra alguém fazê-lo por mim, não deixo matar , só as quero longe de mim.
Esta semana entraram 3 dentro de casa.

A primeira na porta da sala, se foi com meus pensamentos positivos.

A segunda no meu quarto... ah, dormir fora de novo? Me recusei. Cagando de medo, fechei a porta , abri a janela, empunhei a raquete elétrica (não queria matar mas, era a única arma que eu dispunha) e fui pra cima! Nem pense numa cena de força, um combate épico. Foi entre gritinhos e gestos mal calculados  e revoadas da maldita! Lá se foi pela janela como planejado.  Me achei  “a heroína”!

E não é que apareceu a terceira?Não sei se era a mesma  -claro que não deve ser-  mas, ô bicha insistente! Na cozinha. Aí ela me tirou do sério. Deixar de dormir na cama OK, deixar de comer? Nunca! Peguei minha espada, digo, raquete, e fui pra cima. Sem gritar desta vez, só com medo mesmo. E a borboletinha enxerida se foi, entendeu meu recado.

Chego ao final de 2014 assim: confesso que ainda tenho medo das mariposas mas, agora são só borboletinhas escuras.Talvez bichos ressentidos por não terem aquele colorido e serem chamadas de fadinha  causando encantamento. Talvez sejam mesmo mal agourentas mas, morre gente todos os dias ,né? Como culpar a borboleta? Só sei que ela não é um monstro. Nunca foi, eu que dei esse título a ela. 

E, eu sei que se alguma voltar a me aterrorizar,  vou me aparamentar com foco e serenidade, e, mesmo com muito medo, vou enfrentar e mudar o cenário a meu favor. Mariposa vira borboleta.


Feliz 2015!

O registro de índígenas da etnia Yanomami ameaçados de terem suas terras invadidas pelo garimpo, produzido para um caderno especial de A CRÍTICA publicado no ano passado , rendeu a Odair Leal o reconhecimento internacional por seu talento. O fotógrafo acreano foi um dos ganhadores do prêmio Performance dos Humanity Photo Awards (HPA), organizado pela China Folklore Photographic Association (CFPA) e pela Agência das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco).
MATÉRIA PUBLICADA EM AGOSTO DE 2013, CONFORME LINK ABAIXO DESCRITO.

Fonte: http://acritica.uol.com.br/vida/Manaus-amazonas-Amazonia-Ex-fotografo-CRITICA-Performance-Humanity-HPA_0_983901612.html

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

É Papo Reto - Os incomodados que MUDEM-SE.



Na última postagem ( e já tem tempo isso) eu prometi que um dia faria um texto só sobre dicas de educação e bom senso para com  os deficientes.

Na verdade, quando transitamos no  terreno das deficiências , dificuldades e doenças crônicas,  temos que ligar o tal “desconfiômetro” para que qualquer aproximação não seja  uma tortura para aqueles que já tem muito com o que se preocupar.

Certamente, esta leitura destina-se mais aos que não vivenciam e pouco conhecem sobre as limitações e que, por  ignorância , transpõe os limites de bom senso, humanidade, educação com a bela desculpa do “Ah , eu não sabia! É curiosidade!”. Assim, torço para que muitas pessoas sem limitações leiam e tentem executar a difícil (mas, não impossível) tarefa de se colocar no lugar do outro.

A internet está lotada de pequenos manuais de boa educação para com o deficiente e longe de mim querer qualquer destaque  diante de tantas pessoas mais gabaritadas. No entanto, não vou fugir da minha obrigação de exteriorizar as dificuldades pois só assim poderemos aparar as rebarbas dos  relacionamentos.
Eu tentei fazer com que alguns amigos queridos dividissem as suas experiências também porque cada situação apresenta uma faceta diferente. Eu conheço o lado de cuidadora  e familiar de pessoa com deficiência mas,existem muitas deficiências diferentes e muito em comum no que diz respeito ao convívio social também.

Dentre os relatos elencados, nossos repórteres exclusivos Cinthya e Dani (arrasei agora hein?) , foram buscar o depoimento de um amputado.
O Chrystiano perdeu parte da perna esquerda em uma acidente em 2002. Felizmente, o cara é um boa praça e tá nem aí pá nada! Segundo ele, sempre tem um tiozão esperto  que diz “ já sei, foi moto!” E ele responde: foi sim, mas eu estava parado e um caminhão me atropelou.  Das situações  incomodas, que ele rebateu com bom humor, teve  a vez que ele precisou provar para a vendedora da bilheteria do cinema que era deficiente para poder obter o desconto que lhe era de direito; ele simplesmente tirou a prótese e a colocou sobre o balcão.

Chrystiano. Palestrante , trabalha como motorista conduzindo pessoas deficientes, bem humorado, tem um sítio em que um galo pega carona em um bode, agradeço de coração.

  E, quando ainda usava muletas, ele estava esperando a filha na porta da escola e uma pessoa deu umas moedinhas pra ele... E a pior, sem graça nenhuma , foi se sentar em um banco de praça e, as duas pessoas que estavam lá , retiraram-se imediatamente. 
Cá entre nós, se a pessoa precisava sair dali coincidentemente naquele instante (coisa que eu não acredito porque já provei do mesmo) um gesto delicado do gênero “até logo” , “com sua licença” ou um sorriso  já eliminaria o mal estar , né?

 Mas, o que realmente deixa o Chrystiano  chateado é o fato das pessoas sentirem pena dele.  Aí eu chamo a atenção porque nenhum deficiente que conheço gosta deste tratamento , nem meu filho.  É tipo assim: tem dificuldade? Evidentemente que tem. Mas, tirar de coitadinho não ajuda, não estimula,  ao contrário, só diminui.

Já a Sandra Regina, mãe da linda Sandy ,  passa por poucas e boas e nada de engraçado. Detalhe: ela mora em uma cidade pequena do interior onde pressupõe-se que todas as dificuldades são menores certo? Errado. Recentemente, ela precisou chamar uma taxi para transportá-las. Quando ela informou que havia uma passageira deficiente o taxista disse: “ Mas tem que levar cadeira de rodas? Aí é osso hein!” . Gente, quantos clientes de taxi andam com malas, embrulhos e o caramba? Qual a diferença de usar o porta malas pra por a cadeira? O taxista se recusou a fazer a corrida ! O dinheiro da Sandra e de qualquer deficiente é o mesmo. São pagantes,não estão pedindo nada de graça. Ou seja, preconceito.
Sandra e Sandy. Mãe e filha. A Sandy tem Síndrome de  Wolf Hirschhorn,  difícil? Nada comparado ao preconceito que elas enfrentam. 

Ao perguntar a um amigo cadeirante, o Douglas, o que lhe causava desconforto na convivência com os demais, ele não titubeou:
- Eu não gosto de quando me olham esquisito. Eu prefiro quando me tratam normal. Fala um “oi”. Mas, não, ficam me olhando daquele jeito...

Ah “aquele jeito” ! ... Como eu lhe entendo meu amigo! É um olhar que vai entre espanto , nojo e indiferença. Curiosidade? Tudo bem, chegue junto . Como disse o Douglas, fale “oi tudo bem?” e, com a mesma educação que é devida a todos, pergunte o que quer saber. Só não aja como se um ET estivesse na sua frente.
Douglas Gomes Elias. 19 anos de simpatia  e inteligência compactadas, futuro engenheiro mecânico, quase virou churrasquinho em um acidente mas, garante que ficou foi é com dó do carro!

Dentro da minha vivência, existem  inúmeros inconvenientes para o meu filho que tem múltiplas deficiências e todas estes  desconfortos se estendem a mim.
O cuidador/responsável  , também é alvo de comentários, preconceitos e julgamentos ligados a deficiência.  Nem precisam me lembrar que, hoje e sempre, a maledicência é presente na nossa sociedade, portanto , não somos “privilegiados” dos linguarudos mas, o objetivo aqui é dar um “simancol” nas línguas afiadas.

Existem tantas “encheções de saco” e "engolições de sapo" mas, eu me esforcei garimpar as pérolas .
 
Uma das coisas que mais me incomodam é a pergunta: “mas ele entende alguma coisa?”. Na boa gente,  que falta de delicadeza. Primeiro  porque , se o cara entende já se sentiu diminuído, certo? 
Segundo, porque esta pergunta esconde a merda maior que é: bom, se ele não entende, então eu posso falar a bosta que for e , mesmo que ele ouça, não vai entender mesmo.
Terceiro, porque esta pergunta vem acompanhada de uma expressão de desprezo e daí pro desrespeito e relaxo total é um passo!   Fala-se palavrão, mal dos outros, de sexo, dos parentes e da provável morte dele (do deficiente) como se estivesse contando  uma anedota dos anos 20. Se liga Mané! Respeita!

Meu filho tem deficiência intelectual sim e isso não significa que ele não entende/ sente nada, cabe sempre um cumprimento educado ao chegar ou ao sair, uma explicação simples de qualquer ação que o envolva, apresentações  (sim, ele tem nome e você também, né? Ou não?), assuntos possíveis ao orbe infantil.

A expectativa de vida do deficiente é de interesse apenas dele e de seu familiar. Portanto, se você é sutil como um elefante na loja de cristais, nem pense em entrar nesse mérito com coisas  indecentes do tipo: “Senhor! Mas até quando vai este sofrimento?”.  Eu também conheço um monte de gente  que considero inútil e chata e nem por isso pergunto quando vão morrer.

O deficiente/ cuidador, sabe conversar sobre um bocado de coisas, acredite! Não precisa ficar sempre falando de hospital, órteses, próteses, cirurgias... a gente gosta de conversar sobre viagens, comidas, religião. Que tortura é ir a uma festa e, enquanto todos falam do futebol e da novela, a gente é pego pra Cristo! E aqui cabe uma observação e desabafo:   tem gente que me faz a  mesma pergunta há 9 anos, estou de saco cheio de responder a mesma coisa sempre e sempre a pessoa fingir que não sabia (ou não prestar a atenção mesmo) ; desconfio que só querem encher linguiça e demonstrar um falso interesse , se fossem interessados mesmo lembrariam que eu já respondi a mesma pergunta  muitas vezes.

Quando uma criança perguntar sobre o deficiente, tipo: Mãe o que ele tem?  Não tente tapar a boca da criança, disfarçar.   Peça pra criança perguntar ao deficiente. Não crie abismos e situações vexatórias onde não tem. 
Numa dessas, na primeira visita que fiz com meu filho ao zoológico, uma criança perguntou o que ele (meu filho) tinha, o pai quis disfarçar e a criança soltou em alto em bom tom: “Pai,mas ele tá morto???” 
Piorou demais não é?



Outra coisa chata é que  parece que deficiente e familiar de deficiente tem que ser pobre, burro e feio. 
Tem gente que não pensa duas vezes pra falar: Nossa! Ele é deficiente mas, é lindo! Uai? São coisas contrárias por acaso? Se for deficiente tem que ser feio?

“Nossa mas,  vocês trocaram de fogão/carro/calça/ calcinha/sofá? Como assim vocês foram viajar? Como  festa de aniversário de novo? ( deficiente só pode comemorar aniversário uma vez  a cada 5 anos) ” E por aí segue o estigma da pobreza.

A saúde é cara e de difícil acesso. No nosso país mais ainda. Para os deficientes, na maioria dos casos, os gastos com saúde representam algo tipo faraônico sim mas, creiam, vivemos neste mundo e precisamos de tudo que todos precisam! E como eu disse, isso vale pro familiar e cuidador, então, adianto-lhes: mãe de deficiente  e deficiente podem ter formação profissional sim, podem arrumar-se  sim, podem beber sim, podem transar sim, namorar também.  Podem comer, conversar. Podem dançar, divertir-se e sorrir. Me parece que todo o problema reside aí: sorrir e ser feliz.  Aliás, qualquer um que é feliz e sorri é alvo de inveja mas, aquele ser que faz isso apesar das limitações.... hummmm, tá lascado!

Outra coisa, deficiente/cuidador  não são ingênuos (e burros) a ponto de não perceber o sarcasmo, indiretas e “brincadeirinhas” disfarçadas. Então, se liga, porque  se muitas vezes nos calamos , é apenas para evitar discussões inúteis com gente mais inútil ainda.

A questão da ajuda também é uma boa de se falar. Não se sinta constrangido em oferecer ajuda a um deficiente  mas, se você ouvir um “ obrigada, não precisa”, relaxa e segue em paz.Nós não costumamos ser orgulhosos -ao menos os que eu conheço não são- e se não precisa, é porque não precisa mesmo. Não xingue. Não amaldiçoe.  A dificuldade aparente é diária e estamos querendo vencê-las.

Também temos muito desgosto diante da prestação de serviços. E me parece que essa é uma situação que pega mesmo para os que tem múltiplas deficiências. Vou resumir em um exemplo: muitos serviços de saúde não conseguimos acessar , isto porque, há um olhar que nos coloca no monte dos inúteis, irreversíveis , seres que não merecem qualquer investimento.  Não merecem roupa boa, medicamentos de primeira linha,  corte de cabelo da moda, passeios, vida... bom, se os deficientes  e doentes crônicos que lutam  por cada minuto de vida não merecem-na , quem a faz por merecer?

Sabe,particularmente, não me doem as limitações do meu filho. Elas existem , nada vai fazê-lo falar , andar, comer. Me dói  mesmo é o descaso, o desperdício e o desrespeito  das potencialidades  que  ele apresenta. Duvido que alguém jogue no lixo uma penca de bananas somente porque uma está  danificada... com um ser humano é a mesma lógica, portanto, se há uma deficiência ela não justifica o descaso e o abandono.

E a gente poderia ficar relatando  causos até o fim do ano e ainda faltaria espaço pra tudo . Contudo, o intuito foi realmente chamar atenção para as coisas que incomodam ao deficiente e, se a gente não falar,  ficam reincidindo , torturando.

Sabe o ditado popular os incomodados que se mudem? Pois é, só que desta vez, não é o diferente que deve mudar. Não espere que a diferença chegue na sua vida para que aprenda a respeitar o outro. Evolua. Mude-se.

E,  de tudo,  ainda que haja dúvida de como conviver,  coloque-se no lugar do outro e faça a ele só o que gostaria que fizessem a você.
Receitinha velha de convivência  social que tem mais de 2014 anos. Juro.



 Cinthia Cesário e Daniel Cesário. Assumiram o cargo de repórteres exclusivos deste blog, amigos queridos, topam qualquer parada.



O galo folgado do sítio do Chrystiano... detalhe ele pega carona na ovelha e não no bode como eu havia dito.... confundi os bichos! rs
Fontes: 
Depoimentos  e fotos consentidos por Douglas Gomes Elias, Chrystiano, Sandra Regina.
Imagem  da tirinha retirada da página do Cantinho dos Cadeirantes, ótimo blog que indico.







quarta-feira, 11 de junho de 2014

Papo Cabeça I – Eu vou te pegar é pelas costas!


Muitas pessoas se incomodam ao serem fotografadas .  É bem comum, inclusive, a trupe dos fugitivos do flash. Basta analisar os eventos de uma forma geral: enquanto alguns  portam-se como doidos em macaquices mil frente ás câmeras , outros tantos, parecem brincar de gato e rato com o equipamento.

Eu não gosto de ser desagradável e rabugenta mas, se puder dar o fora, prefiro.
Continuo das antigas... foto boa é aquela impressa dentro do álbum, facinha de acessar, não depende de bateria, wi-fi. Adoro manter um pequeno acervo destas “recordações cristalizadas”, boas indutoras de  exercício cerebral, chaves de um arquivo emocional.

Contudo, ao construir o blog, não achei conveniente postar fotos de rosto. Não tenho tudo isso de auto estima , nem gosto por este tipo de aparição. Estou meio as avessas com esta modinha de “Selfie” para rede social. O cabra precisa se amar e se achar demais, né? Tenho coragem não... No que se refere a outras pessoas, também achei mais interessante mantê-las preservadas .  De repente é isso: tem o facebook e, aqui, nós somos os “ bookback” ..rs (Perdoem-me , eu não falo inglês. Se alguém souber como escreve , eu agradeço).

 Eu nunca havia tirado uma foto sequer de costas. Tirei e fui super crítica comigo mesma: me achei meio torta, fortinha, estranha. Mas, por fim, gostei e nem havia entendido o por quê.
Comecei a pedir  para outras pessoas opiniões, fatos, relatos e fotos de costas! Era sempre recebida com ares de surpresa mas, não é que deu certo? Chegaram. De todas as formas, em diferentes contextos mas , todas com muito carinho.

 Passei a observar com que satisfação e preocupação, as pessoas me enviam estas relíquias. Tem sempre uma cautela junto: um “será que ficou bom?”, “deixa eu ver?”, “pode ser assim?”. Bonito de ver e perceber este prazer.

Segundo a Psicóloga Ivete Soares, é uma questão de mistério, o fetiche...Tudo bem que merecíamos umas linhas exclusivas, uma visão  profissional  sobre o tema mas, fazer o que não é Ivete?(Considere isso uma  cobrança básica).

 E, sabem que eu acho que é isso mesmo? Explorei minhas memórias e impressões  e vi que gosto de costas. Gosto do mistério, da surpresa de não saber que rosto tem.  Realmente, sempre foi uma predileção.

E estas lindas poses não poderiam ficar sem descrição, né? Aí que entrou um outro prazer: falar do povo pelas costas! Dar a cada um os seus predicados; tudo bem que é de acordo com a minha visão mas, dar as costas pra mim não é de todo ruim vai!

Claro que não poderíamos deixar de montar um arquivo especial para os bookback´s . Um tamanho bacana, com descrição individual e completa. Um registro geral das costas nossas de cada dia!

Ás vezes , a gente carrega o mundo nas costas. Ás vezes, as pessoas nos veem com costas tão largas a ponto de depositar seus pesos na gente; há momentos que as costas doem. Tem gente que trava por tanto peso.

 As mesmas costas sertanejas, corajosas e fortes, são as que se fragilizam ao receberem  punhaladas traidoras, e , se desfazem em culpas penitenciando-se.

Quando damos as costas a uma velha e cansativa situação, significa que rompemos com a dor e , talvez, alguma felicidade ... porém ,e sobretudo, para nos abrirmos para novos rumos.
Só  uma coisa é certa: se eu vejo suas costas é porque estamos olhando para o mesmo ponto, no mesmo foco, quem sabe até para o mesmo objetivo.Talvez admirando seu passo a minha frente... e  Isso é o que importa.

The Bookback:



























Curtiu? Manda sua foto porque eu quero mais é te  ver pelas costas!!!


Obs: continuo magoada com todos que não contribuíram...snif.

segunda-feira, 31 de março de 2014

É Papo Sério III - Dando a cara a tapa


Retomando depois de tanto tempo.
É o efeito “olho do furacão”. As coisas nos consomem, envolvem de tal forma que só quando o mal perde a força é que podemos sair do abrigo, ainda que seja pra contabilizar os estragos. De qualquer forma, “ó nóis aqui traveis!”
Eu não gosto de muita exposição, por isso, essa cara do blog .Tipo assim, sem cara... só costas.
Creio que seja porque no universo das diferenças e da deficiência, a gente leve muitos tapas na cara, murros, socos e pés no peito. E, então, precisamos achar um jeito de nos proteger de alguma forma. Não acredita?  Acha que preconceito, indiferença e rejeição não fazem parte deste planeta?
Todos os dias a gente tem que dar a cara pra bater.
Eu dou minha cara pra bater quando perguntam se meu filho entende alguma coisa. Sinceramente, odeio esta pergunta. Gente, se até cachorro com seu cérebro diminuto entende, por que um ser humano com sequelas neurológicas não?  Eis que eu encho a boca e respondo: Sim!!! Ele entende tudo. Passo  de louca, coitada e sei lá mais o que. Quando, então, numa tentativa de tirar a prova dos quatro,  a pessoa olha pro meu filho e se dirige diretamente a ele fazendo perguntas e,  mesmo sem sensibilidade e convivência pra tanto, fica esperando a resposta tradicional (em palavras ou gestos bem definidos); a resposta não vem e o tapa come solto na minha cara.
E nesta eu apanho feio, quase toda semana, dentro e fora de casa.
Meu filho não pode realizar terapias em algumas instituições porque usa oxigênio continuamente. Entendo perfeitamente o motivo e ofereço os argumentos médicos pra rebater os receios. Nada feito. Tomamos um tapa na cara e um chute na bunda antes de mais delongas. Aqui cabe uma ressalva:  nestes anos encontramos pessoas que, até armaram a mão para o tapa mas, hoje , dão a cara a tapa junto com a gente.
Quando precisei de um profissional de direito com experiência em causas relativas à área da saúde, recebi uma indicação de um fulano . Marquei a primeira consulta para a semana seguinte. Minha cabeça estava fervendo de preocupação com todas as necessidades que eu precisava suprir entre medicamentos, fraldas, etc. Ou seja, uma semana era um século . No  dia marcado, a consulta foi cancelada, reagendada para dali mais   uma semana. No dia tão esperado, contratei enfermeira para ficar com meu filho  e não fui atendida pois ele teve problemas pessoais... Bem, a indicação era boa, o tal advogado tem um filho nas mesmas condições, resolvi insistir. Marquei nova data, nova contratação de enfermagem, esperei por 2 horas e não fui atendida! Desculpinha esfarrapada .Percebi que , na verdade, o cara não queria se envolver. Custava ter falado isso antes? Mas não! Pra que? Vamos bater na cara desta pamonha até não poder mais! Vamos esculachar até que ela se toque que é um problema dos mais males quistos, e se retire.
Nesse dia eu chorei, vertendo ódio e humilhação. Sabem por quê? Porque nada parece ser o bastante...
Não basta você suportar a dor de ver seu filho amargar um ano no hospital e receber todos os piores prognósticos sozinha.  Não, isso não basta.
Não basta abrir mão das suas perspectivas profissionais, sociais, pessoais em favor dos cuidados de alguém que você ama e depende unicamente de você. Não basta. Você tem que ser o boi de piranha, afinal,a culpa disso é sua. Você é uma folgada que não quer trabalhar, estudar, passear, namorar...( Quanto ao trabalho, não justifica mas , vá lá. No entanto,  as outras coisas... fala sério, né? Depois  eu é que sou a alienada).
Não basta saber que seu filho morre diariamente em doses homeopáticas, tem que ouvir que é melhor ele partir, afinal, até quando vai durar isso? ( Essa eu deixo pra comentar no próximo texto sobre regras básicas de educação e bom senso).
Não é suficiente submeter seu filho aos piores e mais dolorosos procedimentos. Saber que tudo é paliativo, temporário e  se sentir impotente, impotente, impotente...
Nada parece ser o bastante; é preciso a humilhação, com toda a crueldade possível.
No âmbito dos direitos, o importante é “petecar” estes seres inconvenientes da sociedade de uma lado para o outro, buscando soluções, diagnósticos, aparelhos, tratamentos e respostas. Até que  , vencidos pelo cansaço , essa escória de leões da resiliência, se entregue.
 Recolham-se em suas casas. Parem de encher o saco e de “enfeiar” o espaço “lindo , puro e democrático” dos normais.
Palhaçadas acontecem aos montes com outros conhecidos  que tem  necessidades especiais. Eu não vou dar nomes aqui porque não tenho este direito e nem autorização. No entanto, alerto que  não basta a limitação que não escolhemos para nós, ainda temos que  enfrentar as  inúmeras limitações impostas por pessoas no uso de seus cargos e posições.
 Eu estou dizendo que tem gente deficiente  que não consegue fazer certos exames porque ninguém quer sequer tentar. Gente que não consegue tirar habilitação para conduzir veículo adaptado. Ainda hoje conversei com uma pessoa que  não consegue descontos  previstos em lei para aquisição de veículo. Há pessoas que não conseguem se matricular em escolas, não conseguem exercer o direito ao voto.  Não conseguem, enfim,  acessar seus direitos.
É tanta burocracia, protocolos e procederes , “nãos”, idas e vindas, perícias, avaliações, uma verdadeira via-crúcis! E quando, finalmente, a gente cumpre todo o procedimento nem o órgão/entidade/organização ou funcionário parece acreditar! E ouvimos: agora é só aguardar!
Vejam vocês, a tal usina de Pasadena, adquirida pela Petrobrás em um negócio bilionário e internacional,  teve toda documentação de compra avaliada e aprovada em 20 dias! Mas, vai a gente tentar tirar  a meleca do cartão pra estacionar em vaga reservada aos que tem mobilidade reduzida... dias e dias para arrumar o atestado médico com os dizeres corretos. Terminar tudo em 20 dias seria um sonho!
Felizmente, muito felizmente, ao longo do caminho, encontramos rostos que querem apanhar junto.  Pessoas de coração nobre, que não tem vergonha de serem associadas aos diferentes e que ajudam a gente a apanhar menos. Para estas pessoas eu não tenho palavras... Muito obrigada é pouco demais e  eu não ousaria contar feito por feito de cada um deles porque, são tantas coisas boas, que se eu me esquecer de apenas uma já me culparei pela eternidade. É quase um clã, grupo, gangue... Ou melhor, um time, algo que poderia se chamar Tapa na Cara Futebol Clube. Eles apanham conosco e aceitam (ao invés de mostrar a cara)  mostrar as costas e, cá entre nós, parece ser mais perigoso...(risos).
 
1) Kiki Ramos, foto auto descritiva.2) Vandinha, mãe da Kiki...dá dó ,né? 3)e 4) Serenini´s Family, tudo gente boa. 5) Dr. Carlos Eduardo  e Dra. Claudia, meus credores por 3 encarnações. 6) Plínio, Ju e Matheus, irmão-cunha- sobrinho, é o sangue. 7) Nice, enfermeira que divide a bucha comigo. 8)Robson Martinsouza, minha estrela. 9) Dra. Silvana, neuro parceira do blog. 10) O Cara da vez, meu herói. 11) Uma família inteira de desajustados, tutti buona gente! 12) Vó Ivone, função: ser minha vó postiça. 13) Fê Rocha, fisioterapeuta ternura em pessoa. 14) Gil, uma irmã astral. 15) Georg, o peixe falecido do meu sobrinho (pra testar sua atenção) . 16) Mila Lopes,  revisora do Blog ,tudo de bom numa pessoa só... tamanho G é claro! 17) Rosana Ohe, mãe postiça, feiticeira , não cabe tudo aqui. 18) Ygor Rodrigues, meu personal web infomation (coisa de computador).19) Rose e Elenita, representantes da família que acolhe o Bento com todo carinho. 20) Theodoro, novo membro da família acolhedora, um doido aff...21)Mara Franco, a fisio mais amada de Bernô City..rs 22) Dra. Mara Confortini, dentista, é nova no time, vamos pegar leve... mas pensa em uma mulher alta!!! 24) Hideki Ohe,  professor,guru, sábio, meio samurai... 25) "é nóis". 26) Família Lopes Alves, ou só Alves sei lá... só sei que vi crescer. 27) Jorge Vig, meu amigo oculto... tão oculto que nem eu conheço!!! 27) Lu Serdeira, fonoaudióloga, outra top model... aliás, esse time tá bem na foto né?
 

NOTOU O BURACO?? É A SUA FOTO QUE ESTÁ FALTANDO !ALIÁS, TÁ FALTANDO GENTE IMPORTANTE PRA CARAMBA MAS, NÃO QUISERAM ME MANDAR A FOTO... MAGOEI. 
Mas, retomando a questão da exposição da imagem, tivemos que ceder. Depois de muito apanhar tentando manter a regularidade de materiais (e inclusão em terapias) fornecidos pela Prefeitura através de liminar judicial, cansados, demos uma entrevista a um jornal.  E você poderá me perguntar:  e a exposição?
Minha resposta é: rosto machucado precisa parar de apanhar antes que fique desfigurado, descrente, morto. Lutar pela vida, ainda não é proibido. Ainda.
E aí que não era  parte do plano olhar de frente pra vocês aqui no Blog (muito menos em um meio tão amplo quanto um jornal). Sempre achei desnecessário. O importante são as ideias. Mas, já demos tanto a cara pra bater que, taí ...   A gente de frente .
*Crédito para o fotógrafo Orlando Junior, Diário do Grande ABC 

E se eles querem meu sangue, meus amigos ? Terão mas, só no fim.