Na última
postagem ( e já tem tempo isso) eu prometi que um dia faria um texto só sobre
dicas de educação e bom senso para com
os deficientes.
Na verdade,
quando transitamos no terreno das
deficiências , dificuldades e doenças crônicas,
temos que ligar o tal “desconfiômetro” para que qualquer aproximação não
seja uma tortura para aqueles que já tem
muito com o que se preocupar.
Certamente,
esta leitura destina-se mais aos que não vivenciam e pouco conhecem sobre as
limitações e que, por ignorância , transpõe
os limites de bom senso, humanidade, educação com a bela desculpa do “Ah , eu
não sabia! É curiosidade!”. Assim, torço para que muitas pessoas sem limitações
leiam e tentem executar a difícil (mas, não impossível) tarefa de se colocar no
lugar do outro.
A internet
está lotada de pequenos manuais de boa educação para com o deficiente e longe
de mim querer qualquer destaque diante
de tantas pessoas mais gabaritadas. No entanto, não vou fugir da minha
obrigação de exteriorizar as dificuldades pois só assim poderemos aparar as
rebarbas dos relacionamentos.
Eu tentei
fazer com que alguns amigos queridos dividissem as suas experiências também porque
cada situação apresenta uma faceta diferente. Eu conheço o lado de cuidadora e familiar de
pessoa com deficiência mas,existem muitas deficiências diferentes e muito em comum no que
diz respeito ao convívio social também.
Dentre os
relatos elencados, nossos repórteres exclusivos Cinthya e Dani (arrasei agora
hein?) , foram buscar o depoimento de um amputado.
O Chrystiano
perdeu parte da perna esquerda em uma acidente em 2002. Felizmente, o cara é um
boa praça e tá nem aí pá nada! Segundo ele, sempre tem um tiozão esperto que diz “ já sei, foi moto!” E ele responde:
foi sim, mas eu estava parado e um caminhão me atropelou. Das situações
incomodas, que ele rebateu com bom humor, teve a vez que ele precisou provar para a vendedora da bilheteria do cinema que era deficiente para poder obter o desconto que lhe era de direito; ele simplesmente tirou a prótese e a colocou sobre o balcão.
Chrystiano. Palestrante , trabalha como motorista conduzindo pessoas deficientes, bem humorado, tem um sítio em que um galo pega carona em um bode, agradeço de coração.
E, quando
ainda usava muletas, ele estava esperando a filha na porta da escola e uma
pessoa deu umas moedinhas pra ele... E a pior, sem graça nenhuma , foi se
sentar em um banco de praça e, as duas pessoas que estavam lá , retiraram-se
imediatamente.
Cá entre nós, se a pessoa precisava sair dali coincidentemente
naquele instante (coisa que eu não acredito porque já provei do mesmo) um gesto
delicado do gênero “até logo” , “com sua licença” ou um sorriso já eliminaria o mal estar , né?
Mas, o que realmente deixa o Chrystiano chateado é o fato das pessoas sentirem pena
dele. Aí eu chamo a atenção porque nenhum deficiente que conheço gosta
deste tratamento , nem meu filho. É
tipo assim: tem dificuldade? Evidentemente que tem. Mas, tirar de coitadinho
não ajuda, não estimula, ao contrário,
só diminui.
Já a Sandra
Regina, mãe da linda Sandy , passa por
poucas e boas e nada de engraçado. Detalhe: ela mora em uma cidade pequena do
interior onde pressupõe-se que todas as dificuldades são menores certo? Errado.
Recentemente, ela precisou chamar uma taxi para transportá-las. Quando ela
informou que havia uma passageira deficiente o taxista disse: “ Mas tem que
levar cadeira de rodas? Aí é osso hein!” . Gente, quantos clientes de taxi
andam com malas, embrulhos e o caramba? Qual a diferença de usar o porta malas
pra por a cadeira? O taxista se recusou a fazer a corrida ! O dinheiro da
Sandra e de qualquer deficiente é o mesmo. São pagantes,não estão pedindo nada
de graça. Ou seja, preconceito.
Sandra e Sandy. Mãe e filha. A Sandy tem Síndrome de Wolf Hirschhorn, difícil? Nada comparado ao preconceito que elas enfrentam.
Ao perguntar
a um amigo cadeirante, o Douglas, o que lhe causava desconforto na convivência
com os demais, ele não titubeou:
- Eu não
gosto de quando me olham esquisito. Eu prefiro quando me tratam normal. Fala um
“oi”. Mas, não, ficam me olhando daquele jeito...
Ah “aquele
jeito” ! ... Como eu lhe entendo meu amigo! É um olhar que vai entre
espanto , nojo e indiferença. Curiosidade? Tudo bem, chegue junto . Como disse
o Douglas, fale “oi tudo bem?” e, com a mesma educação que é devida a todos,
pergunte o que quer saber. Só não aja como se um ET estivesse na sua frente.
Douglas Gomes Elias. 19 anos de simpatia e inteligência compactadas, futuro engenheiro mecânico, quase virou churrasquinho em um acidente mas, garante que ficou foi é com dó do carro!
Dentro da
minha vivência, existem inúmeros
inconvenientes para o meu filho que tem múltiplas deficiências e todas
estes desconfortos se estendem a mim.
O
cuidador/responsável , também é alvo de
comentários, preconceitos e julgamentos ligados a deficiência. Nem precisam me lembrar que, hoje e sempre, a
maledicência é presente na nossa sociedade, portanto , não somos
“privilegiados” dos linguarudos mas, o objetivo aqui é dar um “simancol” nas
línguas afiadas.
Existem
tantas “encheções de saco” e "engolições de sapo" mas, eu me esforcei garimpar as pérolas .
Uma das
coisas que mais me incomodam é a pergunta: “mas ele entende alguma coisa?”. Na
boa gente, que falta de delicadeza.
Primeiro porque , se o cara entende já
se sentiu diminuído, certo?
Segundo,
porque esta pergunta esconde a merda maior que é: bom, se ele não entende,
então eu posso falar a bosta que for e , mesmo que ele ouça, não vai entender
mesmo.
Terceiro, porque esta pergunta vem acompanhada de uma expressão de
desprezo e daí pro desrespeito e relaxo total é um passo! Fala-se palavrão, mal dos outros, de sexo,
dos parentes e da provável morte dele (do deficiente) como se estivesse
contando uma anedota dos anos 20. Se liga
Mané! Respeita!
Meu filho
tem deficiência intelectual sim e isso não significa que ele não entende/ sente
nada, cabe sempre um cumprimento educado ao chegar ou ao sair, uma explicação
simples de qualquer ação que o envolva, apresentações (sim, ele tem nome e você também, né? Ou
não?), assuntos possíveis ao orbe infantil.
A
expectativa de vida do deficiente é de interesse apenas dele e de seu familiar.
Portanto, se você é sutil como um elefante na loja de cristais, nem pense em
entrar nesse mérito com coisas
indecentes do tipo: “Senhor! Mas até quando vai este sofrimento?”. Eu também conheço um monte de gente que considero inútil e chata e nem por isso
pergunto quando vão morrer.
O
deficiente/ cuidador, sabe conversar sobre um bocado de coisas, acredite! Não
precisa ficar sempre falando de hospital, órteses, próteses, cirurgias... a
gente gosta de conversar sobre viagens, comidas, religião. Que tortura é ir a
uma festa e, enquanto todos falam do futebol e da novela, a gente é pego pra
Cristo! E aqui cabe uma observação e desabafo: tem
gente que me faz a mesma pergunta há 9
anos, estou de saco cheio de responder a mesma coisa sempre e sempre a pessoa
fingir que não sabia (ou não prestar a atenção mesmo) ; desconfio que só querem
encher linguiça e demonstrar um falso interesse , se fossem interessados mesmo
lembrariam que eu já respondi a mesma pergunta
muitas vezes.
Quando uma
criança perguntar sobre o deficiente, tipo: Mãe o que ele tem? Não tente tapar a boca da criança,
disfarçar. Peça pra criança perguntar
ao deficiente. Não crie abismos e situações vexatórias onde não tem.
Numa dessas, na primeira visita que fiz com
meu filho ao zoológico, uma criança perguntou o que ele (meu filho) tinha, o pai quis disfarçar e a criança
soltou em alto em bom tom: “Pai,mas ele tá morto???”
Piorou demais não é?
Outra coisa
chata é que parece que deficiente e
familiar de deficiente tem que ser pobre,
burro e feio.
Tem gente que não pensa duas vezes pra falar: Nossa! Ele é
deficiente mas, é lindo! Uai? São coisas contrárias por acaso? Se for
deficiente tem que ser feio?
“Nossa mas, vocês trocaram de fogão/carro/calça/
calcinha/sofá? Como assim vocês foram viajar? Como festa de aniversário de novo? ( deficiente só
pode comemorar aniversário uma vez a
cada 5 anos) ” E por aí segue o estigma da pobreza.
A saúde é
cara e de difícil acesso. No nosso país mais ainda. Para os deficientes, na
maioria dos casos, os gastos com saúde representam algo tipo faraônico sim mas,
creiam, vivemos neste mundo e precisamos de tudo que todos precisam! E como eu
disse, isso vale pro familiar e cuidador, então, adianto-lhes: mãe de deficiente
e deficiente podem ter formação
profissional sim, podem arrumar-se sim,
podem beber sim, podem transar sim, namorar também. Podem comer, conversar. Podem dançar,
divertir-se e sorrir. Me parece que todo o problema reside aí: sorrir e ser
feliz. Aliás, qualquer um que é feliz e
sorri é alvo de inveja mas, aquele ser que faz isso apesar das limitações....
hummmm, tá lascado!
Outra coisa,
deficiente/cuidador não são ingênuos (e burros) a
ponto de não perceber o sarcasmo, indiretas e “brincadeirinhas” disfarçadas.
Então, se liga, porque se muitas vezes
nos calamos , é apenas para evitar discussões inúteis com gente mais inútil
ainda.
A questão da
ajuda também é uma boa de se falar. Não se sinta constrangido em oferecer ajuda
a um deficiente mas, se você ouvir um “
obrigada, não precisa”, relaxa e segue em paz.Nós não costumamos ser orgulhosos
-ao menos os que eu conheço não são- e se não precisa, é porque não precisa
mesmo. Não xingue. Não amaldiçoe. A
dificuldade aparente é diária e estamos querendo vencê-las.
Também temos
muito desgosto diante da prestação de serviços. E me parece que essa é uma
situação que pega mesmo para os que tem múltiplas deficiências. Vou resumir em um
exemplo: muitos serviços de saúde não conseguimos acessar , isto porque, há um
olhar que nos coloca no monte dos inúteis, irreversíveis , seres que não
merecem qualquer investimento. Não
merecem roupa boa, medicamentos de primeira linha, corte de cabelo da moda, passeios, vida...
bom, se os deficientes e doentes
crônicos que lutam por cada minuto de
vida não merecem-na , quem a faz por merecer?
Sabe,particularmente, não me
doem as limitações do meu filho. Elas existem , nada vai fazê-lo falar , andar,
comer. Me dói mesmo é o descaso, o desperdício
e o desrespeito das potencialidades que
ele apresenta. Duvido que alguém jogue no lixo uma penca de bananas
somente porque uma está danificada... com um ser humano é a
mesma lógica, portanto, se há uma deficiência ela não justifica o descaso e o
abandono.
E a gente
poderia ficar relatando causos até o fim
do ano e ainda faltaria espaço pra tudo . Contudo, o intuito foi realmente
chamar atenção para as coisas que incomodam ao deficiente e, se a gente não
falar, ficam reincidindo , torturando.
Sabe o
ditado popular os incomodados que se mudem? Pois é, só que desta vez, não é o
diferente que deve mudar. Não espere que a diferença chegue na sua vida para
que aprenda a respeitar o outro. Evolua. Mude-se.
E, de tudo,
ainda que haja dúvida de como conviver, coloque-se no lugar do outro e faça a ele só o que gostaria que fizessem a você.
Receitinha velha de convivência social que tem mais de 2014 anos. Juro.
Cinthia Cesário e Daniel Cesário. Assumiram o cargo de repórteres exclusivos deste blog, amigos queridos, topam qualquer parada.
O galo folgado do sítio do Chrystiano... detalhe ele pega carona na ovelha e não no bode como eu havia dito.... confundi os bichos! rs
Fontes:
Depoimentos e fotos consentidos por Douglas Gomes Elias, Chrystiano, Sandra Regina.
Imagem da tirinha retirada da página do Cantinho dos Cadeirantes, ótimo blog que indico.