Quando a gente muda de casa, fica uma séria impressão de que
mudamos de vida.
Talvez sejam as esperanças que se renovam e, munidos de gás
novo, temos a sensação de que os
horizontes se ampliaram e acreditamos no porvir.
Junto com a geladeira e o guarda-roupas, levamos muito mais
coisas que não caberiam em mais de 40 anos por metro quadrado cardíaco.
A gente leva uma mala de saudades. Levamos cheiros, gostos e tantas lembranças!
Quem mora em Araras e região, leva o cheiro de bosta que era (ou ainda é?) produzido pela indústria
sucroalcooleira .
São Paulo, presenteia nossos sentidos com de fumaça de todo o tipo. Poluição da boa!
Quem mora na roça leva o cheiro da terra molhada... bom,
pelo menos, é o que dizem.
Quem mora em São Bernardo, leva o cheiro de café. Sim, café torrado, forte, que empesteava toda uma região anos atrás.
É esse cheiro que estamos levando . Mas não só isso.
Levamos o gosto da pizza da mãe, do vinho quente e do bolo
decorado com pipoca em algum aniversário que pedia mais criatividade em tempos
de vacas magras. Da seiva de alfazema que ela adorava...Sua memória está
conosco, vivinha da Silva.
Estou levando o dia 05/07/2006 , mais precisamente a parte
da tarde, quando trouxe meu filho pra casa depois de um ano de internação.
Porque vitória tem gosto e cheiro.
E na mala gorda levamos amigos e irmãos que amealhamos em
tantos anos de convivência num mesmo local, por exemplo:
A receita do bolo
pobre da vó, os chás milagrosos e todas as coisas que ela ensinou e, creiam, não foi pouco!
O ronco dos carros velhos do Sr. L. em plena 7:30 do domingo .
A facilidade das
pizzas e vídeos comprados e alugados no mesmo lugar.
As grandiosas batidas e acidentes da avenida. As feijoadas
no quintal regadas a caipirinha.
A gritaria do povo da
padaria (Senhor!!! Porque eles gritam uns com os outros pra pedir a comanda?).
Dois labradores
simpáticos e super bem adestrados, que passeiam
na rua e que você só descobre o nome do dono
muitos anos depois de vê-los caminhando todo santo dia...rs. Eles contrastam
com um certo boxer cagão e mal educado, novo no pedaço - novo entenda-se por
uns 7 anos.
Estamos levando os gritos da dona I. quando a bola invadia
seu quintal e que, gentilmente, ela as rasgava.As tardes de brincadeira na
pracinha - que de pracinha não tem nada,
era só uma rua sem saída!!!
O time do Caju, formado pelos atletas do final dos anos 70.
A facilidade de ter atendimento profissional, cordial,
eficiente e com toque muito amistoso e íntimo, que só quem tem como vizinhos a
dentista, a fisioterapeuta, o cabeleireiro, o farmacêutico, o mecânico ( tô me
referindo ao amigo do meu irmão hein!), a professora, o veterinário, o
corretor...
Na lembrança - e essa é só pros fortes - ficam os sorvetes comprados no bar do Dito. Lá
tinha de um tudo! De pinga a
brinquedinhos que jorravam água colorida se a gente segurasse com as
mãos quentes! Ficam as brincadeiras
quando a rua foi interditada para ampliação e a gente, ainda na infância, se
esbaldava na bola e na bicicleta.
E o que dizer os gestos de amizade e boa vizinhança? Aquela
encomenda que a gente tem certeza que recebe porque tem quem o faça na nossa
ausência. Do empréstimo da vaga de
garagem, da comidinha que vem do nada só pra gente provar. De que todo mundo fica de olho nos movimentos
estranhos nas épocas de férias e feriados. Do socorro nas horas de doença
e de outros desesperos.
As coisas ruins a gente deixa. Fica de presente para o
novo proprietário. Ele vai reciclar tudo
e se encarregar de apagar , na britadeira, tudo que não deu tão certo.
E ,de tudo, é certo que:
levamos muito mais do que móveis.
A gente mudou. Não mudamos de
vida mas, posso garantir, é como se fosse.
