sexta-feira, 7 de agosto de 2015

É Papo Cabeça - Quando a gente muda

Quando a gente muda de casa, fica uma séria impressão de que mudamos de vida.
Talvez sejam as esperanças que se renovam e, munidos de gás novo,  temos a sensação de que os horizontes se ampliaram e acreditamos no porvir.
Junto com a geladeira e o guarda-roupas, levamos muito mais coisas que não caberiam em mais de 40 anos  por metro quadrado cardíaco.
A gente leva uma mala de saudades.  Levamos cheiros, gostos e tantas lembranças!
Quem mora em Araras e região, leva o cheiro de bosta   que  era (ou ainda é?) produzido pela indústria sucroalcooleira .
São Paulo, presenteia nossos sentidos com  de fumaça de todo o tipo. Poluição da boa!
Quem mora na roça leva o cheiro da terra molhada... bom, pelo menos, é o que dizem.
Quem mora em São Bernardo, leva o cheiro de café. Sim,  café torrado, forte, que  empesteava toda uma região anos atrás.
É esse cheiro que estamos levando . Mas não só isso.
Levamos o gosto da pizza da mãe, do vinho quente e do bolo decorado com pipoca em algum aniversário que pedia mais criatividade em tempos de vacas magras. Da seiva de alfazema que ela adorava...Sua memória está conosco, vivinha da Silva.
Estou levando o dia 05/07/2006 , mais precisamente a parte da tarde, quando trouxe meu filho pra casa depois de um ano de internação. Porque  vitória tem gosto e cheiro.
E na mala gorda levamos amigos e irmãos que amealhamos em tantos anos de convivência num mesmo local, por exemplo:
  A receita do bolo pobre da vó, os chás milagrosos e todas as coisas que ela ensinou  e, creiam,  não foi pouco! 
O ronco dos carros velhos  do Sr. L. em plena 7:30 do domingo .
 A facilidade das pizzas e vídeos comprados e alugados no mesmo lugar. 
As grandiosas batidas e acidentes da avenida. As feijoadas no quintal regadas a caipirinha.
 A gritaria do povo da padaria (Senhor!!! Porque eles gritam uns com os outros pra pedir a comanda?).
 Dois labradores simpáticos e super bem adestrados, que  passeiam na rua e que você só descobre o nome do dono  muitos anos depois de vê-los caminhando todo santo dia...rs. Eles contrastam com um certo boxer cagão e mal educado, novo no pedaço - novo entenda-se por uns 7 anos.
Estamos levando os gritos da dona I. quando a bola invadia seu quintal  e que, gentilmente, ela  as rasgava.As tardes de brincadeira na pracinha -  que de pracinha não tem nada, era só uma rua sem saída!!!
O time do Caju, formado pelos atletas  do final dos anos 70.
A facilidade de ter atendimento profissional, cordial, eficiente e com toque muito amistoso e íntimo, que só quem tem como vizinhos a dentista, a fisioterapeuta, o cabeleireiro, o farmacêutico, o mecânico ( tô me referindo ao amigo do meu irmão hein!), a professora, o veterinário, o corretor...
 Na lembrança -  e essa é só pros fortes -  ficam os sorvetes comprados no bar do Dito. Lá tinha de um tudo! De pinga a  brinquedinhos que jorravam água colorida se a gente segurasse com as mãos quentes! Ficam  as brincadeiras quando a rua foi interditada para ampliação e a gente, ainda na infância, se esbaldava na bola e na bicicleta.
E o que dizer os gestos de amizade e boa vizinhança? Aquela encomenda que a gente tem certeza que recebe porque tem quem o faça na nossa ausência.  Do empréstimo da vaga de garagem, da comidinha que vem do nada só pra gente provar.  De que  todo mundo fica de olho nos movimentos estranhos nas épocas de férias e feriados. Do socorro nas horas de doença e  de outros desesperos.
As coisas ruins a gente deixa. Fica de presente para o novo  proprietário. Ele vai reciclar tudo e se encarregar de apagar , na britadeira, tudo que não deu  tão certo.
E ,de tudo, é certo que:  levamos muito mais do que móveis.
A gente mudou. Não mudamos de vida mas, posso garantir, é como se fosse.