quarta-feira, 1 de outubro de 2014

É Papo Reto - Os incomodados que MUDEM-SE.



Na última postagem ( e já tem tempo isso) eu prometi que um dia faria um texto só sobre dicas de educação e bom senso para com  os deficientes.

Na verdade, quando transitamos no  terreno das deficiências , dificuldades e doenças crônicas,  temos que ligar o tal “desconfiômetro” para que qualquer aproximação não seja  uma tortura para aqueles que já tem muito com o que se preocupar.

Certamente, esta leitura destina-se mais aos que não vivenciam e pouco conhecem sobre as limitações e que, por  ignorância , transpõe os limites de bom senso, humanidade, educação com a bela desculpa do “Ah , eu não sabia! É curiosidade!”. Assim, torço para que muitas pessoas sem limitações leiam e tentem executar a difícil (mas, não impossível) tarefa de se colocar no lugar do outro.

A internet está lotada de pequenos manuais de boa educação para com o deficiente e longe de mim querer qualquer destaque  diante de tantas pessoas mais gabaritadas. No entanto, não vou fugir da minha obrigação de exteriorizar as dificuldades pois só assim poderemos aparar as rebarbas dos  relacionamentos.
Eu tentei fazer com que alguns amigos queridos dividissem as suas experiências também porque cada situação apresenta uma faceta diferente. Eu conheço o lado de cuidadora  e familiar de pessoa com deficiência mas,existem muitas deficiências diferentes e muito em comum no que diz respeito ao convívio social também.

Dentre os relatos elencados, nossos repórteres exclusivos Cinthya e Dani (arrasei agora hein?) , foram buscar o depoimento de um amputado.
O Chrystiano perdeu parte da perna esquerda em uma acidente em 2002. Felizmente, o cara é um boa praça e tá nem aí pá nada! Segundo ele, sempre tem um tiozão esperto  que diz “ já sei, foi moto!” E ele responde: foi sim, mas eu estava parado e um caminhão me atropelou.  Das situações  incomodas, que ele rebateu com bom humor, teve  a vez que ele precisou provar para a vendedora da bilheteria do cinema que era deficiente para poder obter o desconto que lhe era de direito; ele simplesmente tirou a prótese e a colocou sobre o balcão.

Chrystiano. Palestrante , trabalha como motorista conduzindo pessoas deficientes, bem humorado, tem um sítio em que um galo pega carona em um bode, agradeço de coração.

  E, quando ainda usava muletas, ele estava esperando a filha na porta da escola e uma pessoa deu umas moedinhas pra ele... E a pior, sem graça nenhuma , foi se sentar em um banco de praça e, as duas pessoas que estavam lá , retiraram-se imediatamente. 
Cá entre nós, se a pessoa precisava sair dali coincidentemente naquele instante (coisa que eu não acredito porque já provei do mesmo) um gesto delicado do gênero “até logo” , “com sua licença” ou um sorriso  já eliminaria o mal estar , né?

 Mas, o que realmente deixa o Chrystiano  chateado é o fato das pessoas sentirem pena dele.  Aí eu chamo a atenção porque nenhum deficiente que conheço gosta deste tratamento , nem meu filho.  É tipo assim: tem dificuldade? Evidentemente que tem. Mas, tirar de coitadinho não ajuda, não estimula,  ao contrário, só diminui.

Já a Sandra Regina, mãe da linda Sandy ,  passa por poucas e boas e nada de engraçado. Detalhe: ela mora em uma cidade pequena do interior onde pressupõe-se que todas as dificuldades são menores certo? Errado. Recentemente, ela precisou chamar uma taxi para transportá-las. Quando ela informou que havia uma passageira deficiente o taxista disse: “ Mas tem que levar cadeira de rodas? Aí é osso hein!” . Gente, quantos clientes de taxi andam com malas, embrulhos e o caramba? Qual a diferença de usar o porta malas pra por a cadeira? O taxista se recusou a fazer a corrida ! O dinheiro da Sandra e de qualquer deficiente é o mesmo. São pagantes,não estão pedindo nada de graça. Ou seja, preconceito.
Sandra e Sandy. Mãe e filha. A Sandy tem Síndrome de  Wolf Hirschhorn,  difícil? Nada comparado ao preconceito que elas enfrentam. 

Ao perguntar a um amigo cadeirante, o Douglas, o que lhe causava desconforto na convivência com os demais, ele não titubeou:
- Eu não gosto de quando me olham esquisito. Eu prefiro quando me tratam normal. Fala um “oi”. Mas, não, ficam me olhando daquele jeito...

Ah “aquele jeito” ! ... Como eu lhe entendo meu amigo! É um olhar que vai entre espanto , nojo e indiferença. Curiosidade? Tudo bem, chegue junto . Como disse o Douglas, fale “oi tudo bem?” e, com a mesma educação que é devida a todos, pergunte o que quer saber. Só não aja como se um ET estivesse na sua frente.
Douglas Gomes Elias. 19 anos de simpatia  e inteligência compactadas, futuro engenheiro mecânico, quase virou churrasquinho em um acidente mas, garante que ficou foi é com dó do carro!

Dentro da minha vivência, existem  inúmeros inconvenientes para o meu filho que tem múltiplas deficiências e todas estes  desconfortos se estendem a mim.
O cuidador/responsável  , também é alvo de comentários, preconceitos e julgamentos ligados a deficiência.  Nem precisam me lembrar que, hoje e sempre, a maledicência é presente na nossa sociedade, portanto , não somos “privilegiados” dos linguarudos mas, o objetivo aqui é dar um “simancol” nas línguas afiadas.

Existem tantas “encheções de saco” e "engolições de sapo" mas, eu me esforcei garimpar as pérolas .
 
Uma das coisas que mais me incomodam é a pergunta: “mas ele entende alguma coisa?”. Na boa gente,  que falta de delicadeza. Primeiro  porque , se o cara entende já se sentiu diminuído, certo? 
Segundo, porque esta pergunta esconde a merda maior que é: bom, se ele não entende, então eu posso falar a bosta que for e , mesmo que ele ouça, não vai entender mesmo.
Terceiro, porque esta pergunta vem acompanhada de uma expressão de desprezo e daí pro desrespeito e relaxo total é um passo!   Fala-se palavrão, mal dos outros, de sexo, dos parentes e da provável morte dele (do deficiente) como se estivesse contando  uma anedota dos anos 20. Se liga Mané! Respeita!

Meu filho tem deficiência intelectual sim e isso não significa que ele não entende/ sente nada, cabe sempre um cumprimento educado ao chegar ou ao sair, uma explicação simples de qualquer ação que o envolva, apresentações  (sim, ele tem nome e você também, né? Ou não?), assuntos possíveis ao orbe infantil.

A expectativa de vida do deficiente é de interesse apenas dele e de seu familiar. Portanto, se você é sutil como um elefante na loja de cristais, nem pense em entrar nesse mérito com coisas  indecentes do tipo: “Senhor! Mas até quando vai este sofrimento?”.  Eu também conheço um monte de gente  que considero inútil e chata e nem por isso pergunto quando vão morrer.

O deficiente/ cuidador, sabe conversar sobre um bocado de coisas, acredite! Não precisa ficar sempre falando de hospital, órteses, próteses, cirurgias... a gente gosta de conversar sobre viagens, comidas, religião. Que tortura é ir a uma festa e, enquanto todos falam do futebol e da novela, a gente é pego pra Cristo! E aqui cabe uma observação e desabafo:   tem gente que me faz a  mesma pergunta há 9 anos, estou de saco cheio de responder a mesma coisa sempre e sempre a pessoa fingir que não sabia (ou não prestar a atenção mesmo) ; desconfio que só querem encher linguiça e demonstrar um falso interesse , se fossem interessados mesmo lembrariam que eu já respondi a mesma pergunta  muitas vezes.

Quando uma criança perguntar sobre o deficiente, tipo: Mãe o que ele tem?  Não tente tapar a boca da criança, disfarçar.   Peça pra criança perguntar ao deficiente. Não crie abismos e situações vexatórias onde não tem. 
Numa dessas, na primeira visita que fiz com meu filho ao zoológico, uma criança perguntou o que ele (meu filho) tinha, o pai quis disfarçar e a criança soltou em alto em bom tom: “Pai,mas ele tá morto???” 
Piorou demais não é?



Outra coisa chata é que  parece que deficiente e familiar de deficiente tem que ser pobre, burro e feio. 
Tem gente que não pensa duas vezes pra falar: Nossa! Ele é deficiente mas, é lindo! Uai? São coisas contrárias por acaso? Se for deficiente tem que ser feio?

“Nossa mas,  vocês trocaram de fogão/carro/calça/ calcinha/sofá? Como assim vocês foram viajar? Como  festa de aniversário de novo? ( deficiente só pode comemorar aniversário uma vez  a cada 5 anos) ” E por aí segue o estigma da pobreza.

A saúde é cara e de difícil acesso. No nosso país mais ainda. Para os deficientes, na maioria dos casos, os gastos com saúde representam algo tipo faraônico sim mas, creiam, vivemos neste mundo e precisamos de tudo que todos precisam! E como eu disse, isso vale pro familiar e cuidador, então, adianto-lhes: mãe de deficiente  e deficiente podem ter formação profissional sim, podem arrumar-se  sim, podem beber sim, podem transar sim, namorar também.  Podem comer, conversar. Podem dançar, divertir-se e sorrir. Me parece que todo o problema reside aí: sorrir e ser feliz.  Aliás, qualquer um que é feliz e sorri é alvo de inveja mas, aquele ser que faz isso apesar das limitações.... hummmm, tá lascado!

Outra coisa, deficiente/cuidador  não são ingênuos (e burros) a ponto de não perceber o sarcasmo, indiretas e “brincadeirinhas” disfarçadas. Então, se liga, porque  se muitas vezes nos calamos , é apenas para evitar discussões inúteis com gente mais inútil ainda.

A questão da ajuda também é uma boa de se falar. Não se sinta constrangido em oferecer ajuda a um deficiente  mas, se você ouvir um “ obrigada, não precisa”, relaxa e segue em paz.Nós não costumamos ser orgulhosos -ao menos os que eu conheço não são- e se não precisa, é porque não precisa mesmo. Não xingue. Não amaldiçoe.  A dificuldade aparente é diária e estamos querendo vencê-las.

Também temos muito desgosto diante da prestação de serviços. E me parece que essa é uma situação que pega mesmo para os que tem múltiplas deficiências. Vou resumir em um exemplo: muitos serviços de saúde não conseguimos acessar , isto porque, há um olhar que nos coloca no monte dos inúteis, irreversíveis , seres que não merecem qualquer investimento.  Não merecem roupa boa, medicamentos de primeira linha,  corte de cabelo da moda, passeios, vida... bom, se os deficientes  e doentes crônicos que lutam  por cada minuto de vida não merecem-na , quem a faz por merecer?

Sabe,particularmente, não me doem as limitações do meu filho. Elas existem , nada vai fazê-lo falar , andar, comer. Me dói  mesmo é o descaso, o desperdício e o desrespeito  das potencialidades  que  ele apresenta. Duvido que alguém jogue no lixo uma penca de bananas somente porque uma está  danificada... com um ser humano é a mesma lógica, portanto, se há uma deficiência ela não justifica o descaso e o abandono.

E a gente poderia ficar relatando  causos até o fim do ano e ainda faltaria espaço pra tudo . Contudo, o intuito foi realmente chamar atenção para as coisas que incomodam ao deficiente e, se a gente não falar,  ficam reincidindo , torturando.

Sabe o ditado popular os incomodados que se mudem? Pois é, só que desta vez, não é o diferente que deve mudar. Não espere que a diferença chegue na sua vida para que aprenda a respeitar o outro. Evolua. Mude-se.

E,  de tudo,  ainda que haja dúvida de como conviver,  coloque-se no lugar do outro e faça a ele só o que gostaria que fizessem a você.
Receitinha velha de convivência  social que tem mais de 2014 anos. Juro.



 Cinthia Cesário e Daniel Cesário. Assumiram o cargo de repórteres exclusivos deste blog, amigos queridos, topam qualquer parada.



O galo folgado do sítio do Chrystiano... detalhe ele pega carona na ovelha e não no bode como eu havia dito.... confundi os bichos! rs
Fontes: 
Depoimentos  e fotos consentidos por Douglas Gomes Elias, Chrystiano, Sandra Regina.
Imagem  da tirinha retirada da página do Cantinho dos Cadeirantes, ótimo blog que indico.