domingo, 14 de abril de 2013

Diários de Recepção III - Senhor Piedade!!!


As salas de espera e recepções continuam apresentando-se como verdadeiros laboratórios para mim. Contatos imediatos que são, nada mais nada menos, que uma amostragem de pensamentos da nossa sociedade.Nestes locais, concentram-se pérolas da inteligência e também da inferioridade humana.
Novamente, aconteceu comigo.
Aguardando mais uma consulta de rotina, me sentei na “arena” do consultório que atende ao meu filho. E, recordando-lhes, como trata-se de um serviço especializado em pacientes crônicos e graves, é só “coisa linda” que vemos por lá. Mas, e ainda assim, o meu filho consegue se destacar com seu oxigênio, cadeira de rodas, sonda e tudo o mais... é tipo: chegou o E.T..
Nem cinco minutos de espera e um tiozão me chamou para a baila.
- Tenho um filho especial também...
- Ah é? Tem paralisia cerebral? – respondi aceitando o convite pro “samba do crioulo doido” ou “ a valsa das lamúrias”.
- Não , não...  meu filho tem uma síndrome raríssima , é como se fosse a Síndrome de Down só que ao contrário. É um acidente genético. Leva a limitações irreversíveis, ele não consegue aprender coisas... eu e minha esposa participamos de uma ONG que representa estes casos, a base de tudo é informação... blá blá blá.
E eu dando as curtas. Respostas que aprendi a dar para que a pessoa que está a minha frente possa abrir o coração, falar sobre sua experiência .Tem gente que só quer falar e ser ouvida.
Mas - e sempre tem o mas-  havia uma outra senhora ao nosso lado, se coçando para enfiar a colher e sambar também. Até que, quando  entramos na questão de sentimentos, aprendizados e culpas, ela não se aguentou e soltou a bomba:
- Dizem  que filhos assim são castigo... pelos erros dos pais...
Epa! Epa, epa, epa!!! Primeiro lugar, estou de saco cheio deste povo que coloca  suas opiniões na boca dos outros ou as atribui a um sujeito indeterminado: é sempre um conhecido que disse , um sei lá quem que comentou mas, nunca a pessoa admite sua ignorância. Segundo,  castigo ? Erros dos pais?Socorro! Não deu pra deixar pra lá. Respondi:
- Veja, é mal do mundo querer arrumar o boi de piranha, tudo tem que ter um culpado. Ainda mais nas situações que  fogem a normalidade e chegam pra nos provar. Eu não sou um exemplo de santidade, errei e erro mas, estou consciente que não errei mais nem menos que você e outros por aí, tô na média... Então,  se é castigo pelos erros, tá faltando filho especial pra caramba!!! Cadê o seu?
Desconsertada, deu uma  risadinha bege.E, no mínimo, deve ter pensado: essa  mulher merece isso!
Não sei se existe castigo. Não sei quais as penalidades da justiça divina. Sei é que tem gente bunda mole pra caramba. Gente que vê dificuldades como castigos e que se apressam em culpar, porque um culpado livra-nos do nosso compromisso de crescimento e do enfrentamento sincero das circunstâncias.
 Lembrei do juiz perturbado que deferiu os alimentos do meu filho... Segundo o magistrado, meu filho “é uma cruz mas, fazer o que?” Isso prova que a ignorância e o preconceito não  sucumbem a um diploma. Ambos moram no quarto escuro dos corações podres. Nunca ouvi uma barbaridade desta saindo da boca de analfabetos. As pessoas humildes , são donas de uma simplicidade tão incrível que digerem sem ruminações as dificuldades propostas pela vida. Já os abastados, recusam o prato da evolução por se acharem bons demais pra isso.
Hoje é domingo, dia que a maioria das pessoas vai louvar a Deus, pedir e agradecer. Hoje vou pedir piedade a Deus,piedade para estas pessoinhas tão infantes, tão medíocres...  como  cantava Cazuza:
“Vamos pedir piedade, Senhor piedade! Pra esta gente careta e covarde!”

domingo, 7 de abril de 2013

Papo de Coração III - Pacote de Amor

Tem dias que começam tão atrapalhados... Se resumem a produtos do cruzamento impiedoso de angústias, medos, dores no corpo e na alma, conflitos de toda sorte . E ainda , e não menos importante, uma noite de zelos maternais que reduzem o descanso a um quarto do normal.
Meu dia começou neste ritmo. Desperta de um breve cochilo, tratei de mexer porque hoje, coroando todo este turbilhão, prestaria um concurso público.
Dia melhor não poderia ser ,né? Domingo de meio sol,de meia chuva, de meio frio, de meia noite de sono, de meia tristeza. Meia boca, resumindo.
Decidi que não faria todo o trajeto de ônibus: queria agilizar a ida e a volta.  Para tanto, deixaria o carro no metrô e seguiria por ele.
Cumpridas as tarefas domésticas, passei orientação ao  genitor e saí.
Geralmente gosto de silêncio mas, hoje a música precisava  ficar mais alta que os meus pensamentos, acompanhei o volume gritando . Há momentos que tudo o que a gente precisa é gritar, se possível, com Deus! Feito criança besta pedindo colo.
No estacionamento do Metrô Ana Rosa, pedi  orientação a um funcionário do local para que me indicasse o acesso ao embarque, no que me disse:
- Eu lhe levo lá.
E sumiu o doido sei lá pra onde ; mandou que eu esperasse.  Em 30 segundos voltou pilotando um carrinho elétrico, destes que tem no zoológico. Achei aquilo tão divertido. Em um sorriso e um gesto “vem comigo” , reduziu a velocidade e eu embarquei.  Cinco metros a frente, me perguntou:
-Com música ou sem?
- Tanto faz...- era meu azedume me impedindo de ser feliz.
- Tanto faz não tem... Com música ou sem?
- Com música é melhor!. Já tinha me decido a entrar no jogo.
-  Blues, Jazz, Rock, Ópera...
- Hummm, Ópera! . Fala sério? Esse meu lado FDP é impressionante... pra que fiz isso?
 O cara limpou a garganta em um ham-ham e cantou...Linda e tranquilamente, tal qual um grande tenor, uma melodia lindíssima, parecia alemã - pelo menos, até onde pude captar com minha pouca cultura... O trajeto durou menos que 2 minutos. Desci emocionada e, escondendo meus olhos, agradeci por toda aquela magia.
Eu gritei . Deus ouviu e me mandou um anjo para que eu me lembrasse que todos temos direito a um momento de fragilidade e pirraça mas, como pai generoso e hábil, Ele sempre nos mandará anjos para nos acalmar.
E, se alguém for à estação Ana Rosa de metrô, saiba: tem um anjo no estacionamento!!! Ele é erudito e distribui amor em  forma melodiosa, alegre e absolutamente caridosa... faz o bem sem ver a quem.
Peguei meu pacote de amor  e coloquei no coração.